Sala de espelhos

ANDREI BASTOS

Histórias contadas sem compromisso com a realidade ou com a ficção.

Primeira história:

Astronauta libertado

Astronauta libertado
Minha vida me ultrapassa
Em qualquer rota que eu faça
Dei um grito no escuro
Sou parceiro do futuro
Na reluzente galáxia
……………………………….
Minha dor é cicatriz
Minha morte não me quis

(Rita Lee / Tom Zé)

Uranos

Começava a noite num subúrbio do Rio de Janeiro. A rua, Uranos. De outro planeta, eles estavam ali com barras de ferro e coquetéis molotov nas cinturas, vestindo casacos compridos em pleno verão, acreditando que se confundiam com a multidão nas calçadas - gente que só pensava em tirar a roupa suada, abrir uma cerveja gelada e assistir à novela das sete. De repente, tudo deu errado no cenário de luzes das lojas – as dos carros da polícia, vermelhas, chegaram, abafaram todos os sons com os gritos das sirenes e acabaram com a “agitprop” planejada. Eles correram entre os carros em movimento, driblando os asteróides dos faróis, e ganharam a simpatia dos seres daquele mundo distante, aproximados pelo medo. Tinham que fugir rápido, mas o congestionamento não deixava. Só restou proteção no ônibus que invadiram, entupido de gente. Foi a salvação – vôo direto até a Zona Sul, atravessando Suburbana, Presidente Vargas, Praça XV e Aterro, com desembarque em Ipanema, na Praça General Osório, o ônibus quase vazio e o olhar complacente dos passageiros que restaram. São jovens, idealistas, sonhadores, deviam pensar. Tinham 17 anos naquele 1969.

Foi o ano de todas as aventuras. Guerrilheiros, hippies, maconheiros – tinham um pouco de cada e isso fundiu a cuca de muitos deles. Procuravam por Che, Beatles, Caetano, Marighella, Mutantes, liberdade sexual, marijuana. Herdeiros de 1968, ano que não termina, não tinham consciência de que herdaram também seu próprio passado – só enxergavam o futuro. Encontraram-se no movimento estudantil, na Zona Sul do Rio de Janeiro, alguns com a cabeça já feita contra a ditadura, e esqueceram que não tinham nascido no Vietnã, que eram filhos da classe média carioca. Deslumbraram-se com muitas coisas – revolução, sexo, drogas e rock’n roll – e viveram intensamente sua aventura.

A trilha sonora dos 17 anos não parava de tocar nas suas cabeças, na vitrola: “Hoje eu vou fugir de casa, vou levar a mala cheia de ilusões.”

Dona Mariana

No início dos anos 1960 a Rua Dona Mariana, em Botafogo, tranqüila o bastante para se jogar bola a qualquer hora, era o endereço das embaixadas da URSS e da Iugoslávia. Nesta última estava instalado o clube dos meninos da rua, que brincavam nos seus jardins, assim como nos da mansão da família Guinle, na esquina da Rua São Clemente. Borka e Nicola, casal de irmãos iugoslavos, faziam parte da turma. Croatas, eles eram boa gente, simpáticos, gentis. Somente décadas mais tarde, já na idade adulta, foi possível compreender a diferença apenas percebida entre eles e outros iugoslavos da embaixada, os sérvios antipáticos, que não davam papo, ríspidos com os croatas amigos. Mas eram dias de brincadeiras e experiências científicas com foguetes feitos com cargas de caneta Parker ou tubos de papelão. O mundo dos meninos era muito maior do que o dos adultos. À noite, depois do jantar e do “Repórter Esso”, assistido na casa do general Nélson Werneck Sodré e de Dona Iolanda, era hora de jogar queimado ou garrafão no meio da rua. O general e sua mulher passeavam na calçada - ela apoiada no seu braço e ele fumando com uma longa piteira.

Rua curiosamente democrática essa Dona Mariana, no trecho entre Voluntários e São Clemente – um exemplo de boa convivência entre extremos. Cheia de mansões e casarões, com apenas três ou quatro pequenos edifícios de três andares, ocupados pela classe média, tinha também dois grupos de casas velhas, transformadas em cabeças-de-porco. Num desses grupos de casas morava a louca Melita, que saía aos gritos, jogando panelas no meio da rua. A ambulância vinha e ela sumia por um tempo. Quando voltava, estava calma e falando baixinho pelas paredes. Mas a tranqüilidade não durava muito porque a crueldade infantil não permitia que ela ficasse em paz e sempre provocava seu descontrole.

A Dona Mariana era mesmo descontrolada e plural e a demonstração mais pungente disso é a história de Valentim, que também morava numa dessas cabeças-de-porco, no último cômodo, no fim de um longo, estreito e escuro corredor. Ninguém ia até o quartinho úmido onde ele vivia com a mãe, uma espanhola austera, que só andava de preto, em luto permanente pelo marido que morrera sob o regime de Franco. Eram muito pobres, mas Valentim lia e estudava muito. Deslocado no grupo de filhinhos de papai da rua, ele não escondia a revolta que carregava. Passou para o Pedro II e logo se envolveu com o movimento estudantil, já em 1965 ou 1966. Andava sempre com o uniforme roto, gravata desbotada e meio aberta. Parecia mesmo que só tinha um destino. Muitos anos depois alguém contou que ele entrara para a ALN de Marighella e morrera em combate.

Apesar de toda a democracia da rua, com certeza por conta da Guerra Fria, nos tempos pré-ditadura a garotada vivia intrigada com a embaixada soviética, escondida atrás de grades vedadas que impediam a visão dos seus jardins. A curiosidade era enorme. O manual em russo de um barco de brinquedo, para montar, presente enviado da União Soviética, foi o pretexto para entrar naquele mundo austero. Lá dentro era mesmo estranho e quem atendeu foi um homem de terno escuro. Todos usavam ternos assim. Ele era jovem e um pouco simpático, ficou com o manual e combinou que dali a uma semana a tradução estaria pronta. Tinha pouca gente, as janelas fechadas, muito silencioso.

Mas a Guerra Fria não chegava aos fundos do quintal da embaixada iugoslava, onde funcionava o clube dos meninos da rua, numa pequena construção que servia de depósito de material de jardinagem, e onde eles despertaram para o sexo com as revistinhas de sacanagem arranjadas por um colega mais velho. Essas revistinhas e os filmes mudos ingleses que assistiam clandestinamente na clínica do Pitanguy estimulavam os mais afoitos a sugerir que se convidasse a Borka para participar das sessões de masturbação no quartinho e para que colocassem em prática o conhecimento teórico adquirido. Nicola reagia negativamente e com firmeza a tais sugestões, e só restava à turma se masturbar observando a menina brincando nos jardins pelas frestas da porta de madeira.

O fim do dia da Mariana era marcado pela música do “Repórter Esso” na casa do general. A sala da TV fazia parte da imensa biblioteca que se espalhava por todos os cômodos.

O fim de tudo foi numa manhã de 1º de abril. Era 1964 e as pessoas que iam à padaria na Voluntários da Pátria encontraram tanques e soldados fechando a passagem. Ninguém entendeu nada e voltou para casa sem leite e pão.

Começava o ano de 1968.

Pedro II

Os alunos da turma A1 do Colégio Pedro II, Humaitá, formavam o grupo dos CDF, queridinhos da professora de História “fazedora de cabeças”. Mas era um grupo que também curtia Bossa Nova e tinha conjunto musical. O melhor desse tempo acontecia na casa do Sérgio, um dos integrantes do conjunto, todos embriagados com o pôr-do-sol na Lagoa, visto do alto da Rua Sacopã com trilha sonora de Os Cariocas e Milton Banana Trio. Nunca depois aqueles adolescentes viveram momentos tão cariocas como os daquela ladeira da Fonte da Saudade - nome muito apropriado.

Só faltava a liberdade sexual, o que restringia a presença das garotas nas tardes de Bossa Nova. Irmãs, primas e algumas raras amigas, tudo bem. Namoradas, nunca.

Mas nem só de música popular brasileira vivia o Pedro II. Os Beatles chegaram para animar a festa, e bota animação nisso! Como no mundo inteiro, foi rastilho de pólvora e “Another Girl” roubou o lugar de “Minha Namorada” no coração de muita gente. O conjunto de Bossa Nova rachou, uns embarcando no iê iê iê, outros defendendo nossas raízes culturais, e ainda outros ficando com o rock e a bossa – estes os maiores ganhadores, sem dúvida.

Todos eram ganhadores no Pedro II, sinônimo de excelente qualidade de ensino na época. Seus alunos aprendiam inglês, francês e até latim! A realidade era bem outra, é certo, mas por que não pensar que as coisas poderiam ter evoluído preservando essas características?

Uma reprovação em inglês acabou com a trajetória CDF e provocou a transferência para o terceiro turno, horário dos repetentes, que apresentou uma realidade muito diferente. Mas não menos criativa.

Diferente porque no terceiro turno o poder aquisitivo era mais baixo e ninguém era muito chegado ao estudo, por vagabundagem mesmo. O grupo dos vagabundos criativos logo se afirmou e ocupou as carteiras do fundo da sala. Fernando ficava o tempo todo desenhando histórias em quadrinhos e personagens criados por ele mesmo; Sérgio, o caladão, expressava-se com a guitarra-baixo e admirava os ídolos do rock; Luiz Fernando era o palhaço da turma, sempre rindo e fazendo rir, como até hoje, na TV.

Tudo muito bem, tudo muito bom, mas alguma coisa parecia fora do ar. Talvez culpa, estigma, ou a primeira grande sensação de fracasso.

Cálice de cristal

Foi numa madrugada de outono na Dona Mariana que o cálice de cristal trincou. O vento levantava as folhas que enchiam as calçadas e o menino corria, chorando e rindo, para pedir socorro. Chorava porque não se esquecera de outra noite, tarde, há muito tempo, em que foi levado para casa nos ombros, vendo pela primeira vez a vida de tão alto, e de lugar tão seguro na escuridão do caminho. Não se esquecera da pitangueira carregada, do seu cheiro e das pitangas doces que provou ainda na torre protetora. Chorava também pelo susto de ver o pai espumando pela boca e em convulsões incontroláveis. Ao mesmo tempo ria porque a cena era um ritual da morte, coisa que não entendia, mas que representava o fim da ameaça em que aquele homem, estranho, tinha se tornado. A terra da realização dos sonhos trouxe pesadelos de violência, de destruição do amor e da lembrança das pitangas, do seu cheiro dominando a distante noite de luar. Virou cheiro de bebida, com quadros rasgados na parede, móveis quebrados, objetos jogados para machucar. O caos havia se instalado e o cálice trincado marcava a fronteira entre antes e depois, sanidade e loucura.

Tudo seria diferente do combinado, sonhado.

Mas cálices trincados não eram exclusividade de ninguém. No mundo todo o destino conspirava para uma virada de mesa e se existia um pote de ouro no fim do arco-íris, certamente iria custar caro chegar até ele. A vida no planeta Terra mudava depressa e quem tinha perdido as certezas, não as encontraria mais. Era o preço da liberdade.

Por tudo isso, o caminho que se apresentava era de altos e baixos, curvas impossíveis, subidas intermináveis e descidas vertiginosas. A adrenalina da montanha-russa tomou conta dos corações e mentes e ninguém queria outro brinquedo no parque de diversões, muitas vezes sofridas. Dali para o terceiro turno foi um pulo.

Primeiro amor

Diferentes da turma A1, que encontrava o prazer da vida na Escola Nacional de Música, nos concertos regidos pelo pai da Rosalba, maestro famoso, ou mesmo estudando piano clássico seis horas por dia, como fazia Rafael, ou ainda se dedicando à leitura dos clássicos como Carlos Alberto, os vagabundos criativos do terceiro turno faziam teatro engajado, tocavam guitarra de ouvido e liam histórias em quadrinhos. Os que levaram o engajamento mais a sério acabaram se revelando líderes radicais do movimento estudantil.

Apesar do pouco refinamento intelectual geral, segundo os padrões convencionais de então, ali estavam pessoas de preciosa sensibilidade.

Foi no grupo de teatro que o amor de Sílvia se revelou e ocupou o coração do amado com a mais delicada atenção que um ser humano poderia dedicar a outro. Os corpos vibravam com tal intensidade, que nunca carícias e beijos foram trocados com tanta paixão, mesmo sendo aquele o primeiro amor para os dois. Poemas recitados, cartas apaixonadas escritas por causa de separações de um dia, olhos que não se cansavam de olhar para os olhos do outro, a entrega total a cada beijo. Era assim aquele primeiro amor com uniforme do ginásio, a blusa meio aberta, deixando ver o sutiã que mal cobria os pequenos seios, a pele morena, os cabelos negros, as mãos explorando curvas e caminhos do corpo até o sexo quente e úmido, os pêlos molhados. Sexo que pulsava com o calor dos mistérios que guardava e que estava pronto para se entregar em ondas sucessivas de interminável prazer.

Tão misterioso como surgiu, talvez até por isso, esse amor foi embora numa noite de chuva. Encharcados sob a tempestade de verão na porta do colégio, as lágrimas se confundindo com os pingos grossos que escorriam pelos rostos, e brilhavam refletindo as luzes da rua, com uma rosa nas mãos Sílvia foi se afastando, até não ser mais vista, a não ser na lembrança que nunca se foi. Tão forte quanto o que os havia unido, algo inexplicável os afastava, mesmo sem o amor ter acabado.

Inspetor Abrahão

Era inverno, e japonas faziam parte da indumentária obrigatoriamente. Como a disciplina determinava, as turmas desciam para o pátio, no intervalo ou no final das aulas, formadas em fila dupla, dos mais baixos para os mais altos. Naquela noite a turma de quase delinqüentes foi a última a sair da sala de aula, no último andar do prédio novo. Quando todos estavam formados, finalmente quietos e em silêncio, depois de um tumulto reprimido com a grosseria habitual pelo inspetor Abrahão, como sempre com os olhos vermelhos de quem tinha fumado maconha, uma bolinha de papel passou por cima dos primeiros das filas e acertou a cabeça do inspetor. O homem ficou puto e, espumando de raiva, exigiu que o culpado se acusasse, senão todos ficariam presos depois da hora.

Talvez porque já tivesse uma pinimba, o doidão do Abrahão entrou numa de que sabia quem tinha atirado a bolinha de papel. Como a autoria do crime fosse negada com veemência, o inspetor resolveu levar todo mundo para uma sala isolada no prédio velho, àquela hora vazio. Com a turma já dentro da sala, outro inspetor, parecido com o torturador do DOI-CODI que anos mais tarde interrogaria muitos daqueles secundaristas, branco e de bigode espesso, parecendo meio árabe, entrou e ficou acompanhando a preleção tosca do colega sobre indisciplina e repressão, intercalada com berros e ameaças, grosserias e tropeços nas palavras, tão bêbado e drogado que estava.

A fim de sacanear, usando a bolinha de papel como pretexto, Abrahão acabou mandando a turma embora e reteve apenas o bode expiatório, que levou para outra sala, de janelas e portas fechadas, junto com o outro inspetor. Lá, diante da insistência na negativa de culpa, das mãos nos bolsos da japona e da não aceitação das provocações, tudo para evitar uma reação impensada que justificasse a agressão que os inspetores aprendizes de torturadores pretendiam fazer, Abrahão e seu colega, que não parecia doidão, não se contiveram e encheram o acusado de porrada com socos e pontapés.

Satisfeitos e ameaçando fazer pior se vazasse o que tinha acontecido ali, soltaram o acusado. Impotente diante da realidade, ele foi ao encontro dos amigos que o esperavam e que limparam o sangue que escorrera pelo nariz e sujara a camisa branca do uniforme.

Não voltaria mais ao Pedro II.

André Maurois

Este era o nome do colégio que todos os malucos, subversivos, maconheiros e liberados sexualmente elegeram como habitat. Nele começou a revolução total carioca, com sexo, drogas, rock’n roll e revolução, que tinha como vanguarda uma minoria privilegiada de adolescentes da Zona Sul do Rio de Janeiro. O maior privilégio dessa galera foi ter como diretora da escola a professora de vida e liberdade Henriette Amado. Ali foi possível aprender e viver num dos raros ambientes sem repressão dos tempos de ditadura.

Mais do que um ambiente de estudo e liberdade, o André Maurois foi um laboratório de existência. Lá se aprendeu tudo o que forjava a transformação do Brasil e do mundo, vivendo-se o que de mais importante aconteceu no século XX, da conquista da liberdade sexual à luta contra a ditadura.

O astronauta se lançava ao espaço.

Foi no André, durante a montagem de uma peça de teatro, a título de trabalho final do curso de história, que aconteceu o envolvimento definitivo com o movimento estudantil e com o caldo cultural-existencial que cozinhava as cabeças dos pensantes na época. O sucesso de público e de nota foi o passaporte para outras atividades culturais, como cineclube e jornal do grêmio.

Além disso, o elenco formado por amigos do colégio e de fora criou a oportunidade de um profundo relacionamento entre seus integrantes, com toda a excitação a que têm direito as melhores descobertas afetivas e sexuais. A explosão hormonal liberou uma energia avassaladora. As possibilidades eram todas.

Impossível esquecer a tarde de ensaio em que Mônica, morena alta, sensual, de lábios carnudos e beleza agressiva, interrompeu a discussão sobre liberdade sexual e relações múltiplas e desafiou os dois amigos para uma trepada ali mesmo, naquele momento. O corpo perfeito, blusa entreaberta e saia azul-marinho curta, generosa com as pernas mais gostosas do colégio, provocou um calafrio meio elétrico, como antecipação do orgasmo que dura até hoje. Orgasmo que se repetiu muitas vezes, como no fim de semana de ensaio, escola vazia, em que Sílvia se deitou no sofá da sala da Secretaria, distante do teatro, e abriu suavemente as pernas, estendendo os braços em entrega.

Para muita gente boa, mais verdadeira do que a revolução política e social, a dos costumes, que liberou o uso de Primovlar, anticoncepcional da moda entre adolescentes da época, e confessadamente levou inúmeros rapazes para os braços das garotas liberadas do ME, foi o real motor da História e de trajetórias de vida.

O astronauta entrava em órbita.

Turma do 98

Todo sábado à noite rolava festinha no hall do último andar do primeiro bloco do número 98 da Rua Voluntários da Pátria, o mais seguro para todo tipo de descoberta adolescente. Cuba libre, peitinhos, The Mamas and The Papas na vitrola Philips portátil, mão na xoxota, chupação nos degraus da escada que leva para casa de máquinas do elevador. Era uma coisa de tribo, e as garotas da turma só podiam namorar os garotos da turma. Com isso, quase todo mundo passou na mão de quase todo mundo, algumas vezes entre tapas e beijos, dor-de-cotovelo, dor-de-corno, mas nada que o sábado seguinte não curasse rapidamente num mela-cueca no escurinho.

Sem nenhuma preocupação cabeça, como mais tarde ia pintar no André Maurois, o que rolava era mesmo o sarro, a punheta e a birita. As meninas, todas de família, faziam tudo menos perder a virgindade, o que tinha lá grandes vantagens e a gente nem sabia.

Junto com essa frenética prática de sexo quase grupal, os machos eram guerreiros e andavam em bandos, desafiando outros bandos pelas ruas do Rio de Janeiro. Cinto de fivelão, soco-inglês e correntes faziam parte da indumentária deles nessa fase de brigas de turmas, como a da General Glicério, a da Miguel Lemos, a do 127 ou a da Barão da Torre. Se algum babaca de uma turma mexesse com alguma garota de outra turma, era o mesmo que declarar guerra. E isso acontecia quase todo fim de semana.

Foi num desses fins de semana que Fred, um dos líderes da turma do 127, vizinha do 98, deu uma festa num sábado para comemorar o aniversário. O mela-cueca rolava quando chegou um bando de penetras da Barão da Torre, turma barra pesada. Os malucos, já muito doidões de tudo quanto é coisa, começaram a passar a mão nas meninas e, estragando a festa de vez, agrediram a própria mãe do aniversariante, que tinha pedido para irem embora. Com essa, ninguém mais se segurou e foi pancadaria escada abaixo, até quase o meio da rua.

Ironicamente, foi o aniversariante que intercedeu em favor dos caras, que já estavam mais do que quebrados, e parou um táxi para eles se mandarem. Como todos estavam bêbados, foi fácil retomar o ritmo da festa e logo os relatos da briga passaram a servir para os fodões contarem vantagem e se mostrarem para os fodinhas e para as garotas. Ironicamente, assim como alguns outros fodões daquele tempo, o Fred já não estava nessa e tinha colocado sua experiência de grande lutador a serviço da segurança de passeatas e até do Vladimir Palmeira. O movimento estudantil de 68 tinha contagiado muitos brigões e Fred, sendo um desses, já não pensava como antes e por isso tinha livrado a cara dos babacas.

Mais ironicamente ainda, no dia seguinte, o tradicional domingo de cinema com namoradinha, ninguém da turma estava na área e só o Fred, que por alguma razão tinha dispensado a namorada mais cedo, batia papo com o porteiro do prédio. Foi por volta das 18 horas que um grupo de filhos da puta da Barão entrou pela frente, indo em direção à portaria. Exímio capoeirista, ele não se intimidou e partiu para enfrentá-los. Só que, ao mesmo tempo, outro grupo veio dos fundos do prédio e o cercou. Era muita gente e toda a perícia do lutador não foi suficiente. Os caras o dominaram, deram uma gravata, prenderam seus braços atrás e o obrigaram a se ajoelhar. O mais filho da puta deles, não à toa filho de milico de direita, levantou o suéter e, com uma pistola automática de uso privativo das Forças Armadas, friamente deu um tiro à queima-roupa no coração do Fred.

A partir desse dia, enquanto acabava a era das gangues de rua e antes e independentemente de todas as pregações de luta armada que vieram depois, o movimento estudantil e a luta contra a ditadura adquiriram um caráter belicista definitivo para os cabeças feitas daquela turma.

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Segunda história:

Trem-fantasma

Aonde vai
Aonde vai
A bolondrina
Que por aqui passou…

Assim canta, de um jeito triste, o prisioneiro Edgard de Aquino Duarte na Barão de Mesquita. As celas são cinco ou seis no que seria a haste horizontal do corredor em T, e ele ocupa a penúltima à direita de quem entra. É calmo, fala com voz mansa, mas firme, e não escondendo sua grande experiência em prisões e tortura, sempre encoraja seus vizinhos das outras celas a enfrentar com firmeza e tranqüilidade os terrores a que são submetidos. Ele não esconde também a certeza que tem sobre seu destino e diz, com a serenidade que lhe é peculiar, que o trouxeram de São Paulo para ser morto. De fato, é o único que não levam para a sala de tortura ou para a geladeira. Dá conselhos, parece resignado, e só altera seu timbre de voz quando se refere ao cabo Anselmo, culpado pela sua prisão, ou à mulher e filha que deixou em São Paulo.

Medo

É terrível quando no meio na noite, as luzes das celas apagadas, irrompem pelo corredor o barulho das botas e as silhuetas sombrias. Nessa noite antecipada pela inquietação que dominou o dia e de coração acelerado, que não deixa dormir direito, é especialmente assustador.

As batidas nas grades e as vozes ríspidas terminam de despertar e rapidamente é cumprido o ritual de algemar as mãos nas costas, colocar a venda nos olhos e, finalmente, o capuz preto. O que irá acontecer?

Em imobilidade compulsória, sem enxergar nada e sem o equilíbrio que as mãos para trás, algemadas, impedem, só resta deixar que as silhuetas sombrias coloquem suas mãos sob os braços prisioneiros e guiem. A porta da cela é fechada com o barulho dos ferros ecoando depois de alguns passos e, à medida que se avança, já na parte que seria a haste vertical do corredor em T, os pensamentos acontecem em velocidade vertiginosa. Ao mesmo tempo que produz toda sorte de especulação sobre o que irá acontecer, ou que pergunta o que teria provocado aquela visita noturna, a mente trabalha febrilmente para manter o controle da situação e vencer o medo que chega com o vento frio da madrugada, que circula nos corredores como um fantasma.

A mente parece funcionar, apresenta os argumentos necessários, mas não adianta. Aos poucos, começando pelas pontas dos dedos dos pés e das mãos, o vento frio se apossa do corpo, sobe pelas pernas e pelos braços, desaquece o coração, que bate cada vez mais forte e depressa, em desespero para enfrentar a onda paralisante. O controle mental, se ainda existe, está restrito à própria mente, como fantasia. O corpo se separa, não obedece aos comandos e inicia uma dança patética de tremores. Tudo começa a sacudir cada vez mais intensamente, até o ponto em que todo o ser desaba, corpo e mente, e é preciso carregar e não apenas guiar.

Assim, carregado, os dois lances da larga escadaria são descidos. No pátio, o fardo prisioneiro é colocado deitado no chão da Veraneio, entre os bancos da frente e de trás. Envolvido pelo calor da estrutura do veículo e pelas botas dos ocupantes do segundo banco, e passada a onda de tremedeira, o prisioneiro volta a ser invadido pela torrente de pensamentos.

O que irá acontecer?

Ressurreição

A equipe e seu prisioneiro partem para uma viagem no meio da noite de lua. Durante todo o tempo os ocupantes do banco de trás se divertem com o fardo prisioneiro, alternando momentos de violência, quando lhe aplicam coronhadas de fuzil ou estocadas com cano de revólver, com momentos de humor negro, quando lhe fazem cócegas para provocar o riso desmoralizante. Nessas ocasiões o prisioneiro morde a língua para afastar o riso com a dor.

Depois de rodar muito em silêncio, o chão do veículo começa a revelar mudanças radicais na natureza do terreno, dá pulos e joga muitas vezes a cabeça do prisioneiro contra a porta. Fica mais calmo de repente, roda um pouco mais macio e pára. As portas são abertas, todos saem, e o prisioneiro é arrastado para fora. Colocado de pé, é conduzido para boa distância da picape. Ele está descalço e percebe o chão de terra, com algumas pedras que machucam os pés.

Param, e começam a falar. Perguntam sobre pessoas, quais seus nomes verdadeiros, o que tinham feito. Rapidamente o tom das vozes se eleva e vários falam ao mesmo tempo, em gritaria, agressivamente, associando as ameaças e perguntas a chutes, golpes de porrete, coronhadas. Pelas vozes e porradas dá para perceber que estão em círculo.

“Cadê o Tom, seu filho da puta! Vamos, abre logo o ponto senão tu vai morrer, terrorista de merda! O nome dele é Sérgio Landulfo Furtado, você conhece, fala logo!”

Depois de bater nessa tecla por um bom tempo, querendo saber do Tom, fica claro que essa é a informação mais importante que buscam. O prisioneiro diz que não conhece nenhum Tom, e não conhece mesmo, e quanto mais o faz, mais apanha. Exasperado diante das insistentes negativas, um deles grita mais alto e diz que então ele vai morrer e atira no chão, próximo aos seus pés. Os outros também começam a atirar. Não são muitos os tiros dados durante a eternidade que se instala na mente do prisioneiro, que vê e fala com pessoas que ama, sua vida passando diante dos olhos feito um filme.

Corte brusco. O prisioneiro flutua e assiste do alto ao seu próprio corpo caído na clareira, no meio do círculo formado pelos homens, que falam entre si. É bela a noite de lua cheia e se perde de vista o fim do capinzal, que ondula suavemente com a brisa fresca.

Plano geral. Toda a cena banhada generosamente pelo luar, sob o céu de estrelas, de azul denso, profundo.

Fade in, fade out. No início da tarde o prisioneiro acorda no catre da sua cela, a última à direita de quem entra no que seria a haste horizontal do corredor em T. Entre esse momento e o anterior, a escuridão da noite e a escuridão da mente.

Lembranças

As lembranças da noite em que começara a viagem de trem-fantasma não morrem. A doce namorada deixada perto da casa dos pais antes do encontro com fadas, duendes e gnomos de Arembepe, em Copacabana. São espíritos vestidos de branco e envoltos em nuvens suaves de poeira luminosa, como a Sininho do Peter Pan. Rômulo, Luísa, beijos, carícias, baseados – era possível sentir o cheiro da maresia e a poeira luminosa se misturava com punhados de areia daquela praia da Bahia. Enfim um momento feliz depois de muitos dias sem rumo, dormindo cada noite numa casa diferente, se escondendo, fugindo.

Fugindo de quê? Fugindo para onde? A fuga não tem mais sentido, não leva a lugar algum, e um cansaço ancestral toma conta da alma. Longas despedidas e interminável viagem de ônibus depois, a entrega. Não sem tomar o cuidado de antes deixar o amigo na porta de casa, por caminho diferente. Noite – é sempre à noite que acontecem essas coisas.

Ao dobrar a esquina da quadra da rua do Ópera, mal iluminada por poucos postes de luz, tudo se define. Instantaneamente paredes invisíveis se formam atrás e na frente, na outra esquina, e não dá mais para correr. O único movimento possível é caminhar sem se alterar em direção a um destino desconhecido, obscuro. Tão obscuro quanto os vultos na porta do prédio e do outro lado da rua, em frente, em volta de dois fuscas.

O porteiro, estranhamente acordado de madrugada, e ainda por cima acompanhado de dois ou três homens, diz um boa-noite balbuciado e o caminhar cego prossegue, agora subindo o lance de escadas que leva ao apartamento. Colocar a chave na fechadura é a senha para o ataque. Saídos do nada, vários homens apontam armas e um deles o segura com violência pelo colarinho, por trás, e termina de rodar a chave. Lá dentro já está outra turma, e diante da reação de pacifista indiano é dada a ordem de fornecer documento de identidade e se sentar no chão.

Afinal, que guerrilheiro é esse, muito magro, de tênis Bamba branco, vestido com as calças de barras floridas da Rosa, o pulôver leve e amarelo do Peixinho, companheiros no apartamento, e, ainda por cima, com caracóis no cabelo como o Caetano Veloso?

Na volta, um deles grita com visível excitação: “É esse mesmo! Vamos levar!” Não antes de muitas coronhadas e estocadas com os revólveres, e ali mesmo é cumprido o ritual de algemar as mãos nas costas e colocar a venda e o capuz preto.

Começa a viagem de trem-fantasma.

Estação Barão de Mesquita

Rapidamente o pequeno comboio chega diante de um grande portão de ferro, que se abre e depois se fecha atrás dos fuscas com os ruídos característicos. Mais depressa ainda o preso é arrancado do banco de trás do carro e levado pelos dois lances de escadaria para a última cela à direita de quem entra no que seria a haste horizontal do corredor em T. Depois de ninguém falar nada o tempo todo, é dada a ordem para virar de costas, não olhar para trás, algemas, venda e capuz retirados, a porta fechada, as luzes apagadas. Pouco depois, muito pouco depois, as luzes se acendem e um vozerio agitado vem pelo corredor. É dada a ordem de virar de costas e não olhar para trás, a porta é aberta, algemas, venda e capuz colocados, o preso é levado aos cachações para uma sala à esquerda de quem desce os dois lances de escada. O ambiente fortemente iluminado permite vislumbrar os muitos vultos presentes, apesar da venda e do capuz.

A dança violenta dos vultos do comitê de recepção começa com o ritmo das cacetadas determinado pelas perguntas feitas por alto-falantes, num microfone, mas que nitidamente vêm do fundo da sala, pois a voz de timbre forte do interrogador é percebida com clareza, independentemente do sistema de som.

Mais doida do que a cabeça do prisioneiro, seqüestrado durante um barato de fumo, é a série de perguntas, em tiroteio, feita pelo chefe dos torturadores, com o coro desordenado dos subordinados - uma loucura sem pé nem cabeça, com um desfile de nomes e fatos inteiramente desconhecidos. Aos poucos, em meio à gritaria e à pancadaria, aparecem os primeiros sinais de ligação com a realidade, embora de maneira equivocada. A voz do fundo da sala chama o torturado de Menininho e relaciona a isso alguns fatos que fazem sentido na sua cuca fundida, fodida. E ele pensa que está fodido mesmo, pois estão achando que ele é um outro secundarista, muito mais envolvido e ligado ao próprio Lamarca.

“Prendemos tua namoradinha, a Lúcia!” Mais confusão no samba do torturador doido, que, arrogantemente, resolve mostrar a cara e manda que retirem o capuz e a venda. O ambiente confirma o que se vislumbra vendado - luzes fortes parecidas com as de mafuás do interior, sala rodando na cabeça como carrossel barato. No canto direito, em frente, ao lado de grande janela de vidro de visão unidirecional, por onde platéias privilegiadas assistem aos espetáculos de terror ali apresentados, o chefe fica atrás de pequeno púlpito com microfone - homem branco, cabeleira cheia e negra, bigodes espessos também negros, um pouco gordo, parecendo de ascendência árabe. Nagib? O coração dá um pulo na primeira parte da sua frase e se alivia com o desfecho. Um alívio parcial. Lúcia é amiga muito querida, linda, e mulher de Alex, outro amigo querido. Além disso, era para ela estar muito longe dali, fora do país. O que teria acontecido?

As confusões e informações desencontradas se sucedem e dificultam a aceitação da idéia de que o prisioneiro é um Forrest Gump da luta armada, que rejeitara no final de 1969. Decisão difícil para quem tinha sido de turma de rua na adolescência recente, quando era brigão, usava cinto de fivelão e gostava de soco-inglês. A evidência de que a guerrilha era uma trágica brincadeira de bandido e mocinho, reforçada pelo melancólico entusiasmo juvenil do recrutador na conversa que durou toda a extensão da Praia de Botafogo, facilitou a renúncia ao que seria apenas um machismo inconseqüente.

Com mais ou menos um mês na estação Barão de Mesquita, o preso tem o tratamento que lhe é dedicado mudado radicalmente e é jogado só de cuecas num cubículo de 1,5m x 1,5m, todo pintado de preto, muito frio – a geladeira. Pelo sistema de som anunciam que não vão mais encostar a mão, mas que sua mente será destruída, que vão enlouquecê-lo e ele ficará ali até contar tudo o que sabe, de pé, com frio, fome, sede e com os tímpanos e a cabeça sendo estourados pelo barulho ensurdecedor, enlouquecedor, que sai dos alto-falantes. Nada que lembre a música de Led Zeppelin, Black Sabbath ou Iron Butterfly, e o prisioneiro embarca na pior bad trip da vida se perguntando se não seria melhor estar na sala da porrada.

When I see you in september

Depois de sabe-se lá quanto tempo na geladeira, onde os dias são iguais às noites, noção do tempo perdida, é cantando “When I see you in september” que Carlinhos, preso na cela da outra extremidade do que seria a haste horizontal do corredor em T, informa que é agosto e que acredita na liberdade em setembro. As músicas da moda, especialmente as dos Beatles, são de grande serventia para troca de informações e conforto até que, percebido o jogo de metáforas, é dada a ordem de calar a boca.

Curiosa e ironicamente o silêncio é interrompido na tarde pela escandalosa gritaria de uns tantos presos amontoados numa das celas. Curioso porque estão ali por uso e tráfico de maconha, irônico porque é um grupo de soldados do próprio quartel que aprisiona os subversivos. Que barulheira fazem! Gritam, choram, suplicam, sem levar porrada alguma. Chega a ser engraçado e a piada quebra a atmosfera sombria daquele corredor muitas vezes da morte. Percebida a inconveniência, somem dali.

Retomada a rotina de terror, já é a segunda quinzena de setembro, ainda na estação Barão de Mesquita. Da rua, de manhã bem cedo, com estardalhaço de batidas de armas e porretes nas grades das celas, chegam os berros:

“Hoje é dia de folga pra vocês! Matamos o Lamarca!”.

Abafados pelo silêncio triste no farto café da manhã, servido em comemoração pelos carcereiros e pelo próprio oficial de bigodinho fino, outro chefe, milhares de pensamentos se recusam a parar e chegam a dar a sensação de que são percebidos por causa do barulho imaginário que fazem.

Quem mais teria dançado?

A resposta a essa pergunta chega um dia depois pela portinhola da geladeira, bela e nua. Morena de olhos negros, assustados, seios lindos e pequenos como pêras, crispados de frio, pernas desencontradas e trôpegas, desenhadas com generosidade apaixonada pela natureza, emoldurando os pêlos do púbis, Helena é empurrada para dentro do cubículo, com os braços soltos, mulambos, olhar fixo de indagação. Um diante do outro, nus, palavras trocadas em linguagem velozmente cifrada, perguntas feitas com olhos inquietos. Era urgente encontrar a resposta para aquele encontro inesperado, sem nenhuma vírgula excessiva no diálogo de bobos. A visão do corpo nu da linda mulher, sua proximidade, sua intocabilidade perturbadora, turvam o raciocínio com lascívia, contraditoriamente dando credibilidade ao papo de maluco, abestalhado de verdade. A vontade de abraçar, beijar, fazer carícias prevalece, se explicita, e o olhar de despedida deixa em cada um essa promessa. Helena vai embora e não se fala mais nisso.

De volta à última cela à direita de quem entra no que seria a haste horizontal do corredor em T, sem noção de nada, é preciso que Carlinhos cante “We are see you in september” para que fique entendido que é setembro, segunda quinzena. O retorno acontece no começo da noite, hora em que é servida a melancólica sopa de galinha com pão, lâmpadas amareladas se acendendo, buzinas de carros anunciando o rush. Melancolia aprofundada pela voz que faz coro ao Carlinhos, grossa e embolada, parecendo de bêbado, drogado ou doente mental, o que não está em desacordo com o lugar, pois, quem não é, acaba ficando. A voz é do prisioneiro Celso, da VPR, que também trouxeram de São Paulo, só que para fazer acareações e confirmações de depoimentos. O constrangimento cala as outras vozes, e Celso canta sozinho um pouco mais, gradativamente baixando o som da voz até terminar com alguns versos sussurrados.

Estação PE da Vila

Sair para a rua no meio da tarde? Da última vez, foi da escuridão da geladeira para a ofuscante e estranha experiência de acampanar em frente ao prédio em que mora o Silvinho, venda e capuz retirados para ver um colega do movimento estudantil passar na calçada, ao lado do carro. Lance esquisito demais, parecido a um teste de avaliação do espírito colaborador do prisioneiro. Qual será a nova jogada?

Apesar da impossibilidade de enxergar através da venda e do capuz, os cheiros e barulhos inconfundíveis da Avenida Brasil não deixam dúvida em relação à direção tomada, ao menos oposta aos bairros em que mora a maioria dos secundaristas, tudo classe média da Zona Sul.

Sem passar por nenhuma sala ou outro ambiente semelhante a escritório ou guarita, ainda com venda, capuz e algemado, o prisioneiro é levado por uma calçada ao ar livre, piso de cerâmica percebido pelos pés descalços. A porta aberta com barulho forte de ferros antecipa a retirada dos apetrechos imobilizadores e do macacão azul de pernas curtas, também sobre piso de cerâmica. O ambiente se apresenta para o novo ocupante, que fica só de cuecas. As paredes de azulejo branco, meio amarelecidas e sujas pelo tempo e falta de limpeza, são tão frias quanto o chão e a ausência de qualquer mobília, mesmo que de alvenaria, deixa claro o desamparo para aquela noite. Também não tem pia e o vaso sanitário é um buraco no chão, com lugares para colocar os pés indicados em relevo, como nos quartéis.

A porta da cela tem suas grades vedadas por chapa de aço até a altura do nariz e deixa entrar pelas suas aberturas da parte de cima o resto do fim da tarde. O prisioneiro se aproxima e vê pelas grades um campo aberto, iluminado pela luz avermelhada do pôr-do-sol, sem nenhuma construção, surpreendentemente ocupado pelo mesmo capinzal que vira antes da ressurreição.

O caldo ralo chega com a noite, escura como ele, e a ausência de colher indica que é preciso sorver o líquido e recolher os feijões com a mão. O copo d’água, de plástico como o prato, é insuficiente para matar a sede e lavar as mãos. Lamber bem os dedos, limpando-os dessa maneira, é a prática adotada para a mão direita. À mão esquerda, com a falta de papel, pia ou água corrente de outro tipo, a não ser a da descarga da privada, é reservada a humilhante tarefa de retirar os excessos de fezes depois de defecar.

Mas o pior vem com o cansaço das noites não dormidas que leva o prisioneiro ao solo. Encostado a uma das paredes, ele determina no chão frio um lugar para esquentar com o calor do próprio corpo e ali encontrar conforto. A escuridão só é interrompida pelas luzes imaginadas dos lugares de onde vêm os gritos de outros prisioneiros sendo torturados. O cansaço é tão grande que vence o medo da tortura, famosa pela brutalidade ali praticada tradicionalmente, e leva os olhos a se fecharem. Aos poucos, pequenos incômodos em várias partes do corpo, fazendo cócegas e provocando coceiras, o despertam e não o deixam dormir. Ele é atacado por muitos, inúmeros pequenos seres, que pelo tato descobre que são baratas.

Pequena algazarra, intencional, com falatório e risos debochados, chama a atenção do hóspede das baratas para as grades vazadas. No meio da tarde ele vê Alex passar pelo corredor, em direção à cela ao lado, sem capuz ou venda, devidamente escoltado. Os barulhos dos ferros anunciam abertura e fechamento da porta vizinha e a escolta vai embora. Mesmo supondo a presença de mais alguém, é impossível deixar de chamar o amigo. A conversa gira em torno de movimento estudantil, de quanto Alex se esforçara para preservar o grupo de secundaristas que tinha dançado, de amenidades do mundo exterior, das sessões de meia-noite do Paissandu e outras bobagens. A única informação intrigante trazida é a de que ele teria sido visto pelo amigo numa sala de tortura do Dops, lugar em que não imaginava ter estado, embora os muitos deslocamentos encapuzado permitam admitir a possibilidade.

Macondo!

Com o sumiço de Alex e a repulsa pelas baratas vencida pelo cansaço na terceira noite, a manhã chega com algum descanso, que logo é sacudido pela chegada da escolta. Para grande surpresa, os soldados trazem a roupa com que ele foi preso e mandam que se vista. Para maior surpresa ainda, não são colocados capuz e venda e as mãos são algemadas na frente. Depois de lavar as mãos e o rosto numa pia da área externa do pequeno complexo de celas, o prisioneiro é colocado num jipe militar.

A curta viagem de jipe leva a uma construção grande, sólida, de paredes brancas, antiga, tipicamente militar e sul-americana, colonial. Continuando a surpreender, a recepção é feita por apenas um tenente, grandalhão e meio gordo, de botas pretas reluzentes, calça verde-oliva engomada, camiseta branca, com patente e nome gravados com perfeição, e quepe, também verde-oliva. Gente do interior do país, meio mulato, olhos rasgados de índio, certamente descendente dos povos antigos da Amazônia, ele ordena a retirada das algemas e conduz o prisioneiro pelo braço, subindo os três degraus largos que conduzem à varanda da entrada principal do prédio.

O sentinela de guarda, único substituto da escolta, que retorna à base, bate continência e abre a grande porta de madeira trabalhada, pesada, que dá passagem para o hall vazio, de onde saem três corredores largos. O ser sul-americano com patente militar, verdadeiro rei tribal primitivo, aponta um dos corredores com a mão. Guardião e prisioneiro seguem em frente, diante da decoração composta de obuses e outros apetrechos de artilharia.

A segunda grande porta de madeira se abre para um amplo salão em arco, decorado com extrema austeridade. Na frente dos dois, ao fundo, diante de tal economia de objetos ganha destaque a mesa de trabalho. Alguns passos em direção a ela e o chefe índio uniformizado diz para parar e aguardar.

Pela porta nos fundos da sala entra o coronel. Figura esguia, cabelos brancos muito curtos, cortados à moda militar, bigodes também já embranquecidos e não muito espessos, fisionomia severa, camiseta branca com a gravação de patente e nome, calça verde-oliva bem passada, botas pretas igualmente reluzentes, de canos longos e esporas de cavalaria, e uma chibata curta na mão direita, que marca no cano da bota o ritmo das passadas largas em direção à cadeira atrás da mesa.

Diante do cenário e dos personagens presentes, o prisioneiro não tem dúvidas: está em Macondo!

Cem anos de solidão nas prisões da ditadura e cem dias de fome de comida de gente não permitem disfarçar os olhos esbugalhados do prisioneiro. Sentado, o coronel pergunta se ele já almoçou. A negativa faz com que lhe ordene que se sente na cadeira diante da mesa e que lhe seja servida uma refeição. Não diz nada entre uma coisa e outra. O silêncio só é quebrado pelos papéis folheados e pela entrada do soldado com o prato de comida. Os olhos esbugalhados se arregalam com a refeição servida. Comida de oficial, cheirosa, bonita, colorida, com arroz, feijão, tomate, alface, batatas fritas e o bife mais suculento do planeta.

Como sobremesa, o coronel coloca diante do prisioneiro um tijolaço de papel ofício, deixa cair a mão pesadamente em cima e diz que ali está o depoimento feito na estação Barão de Mesquita. Apesar do forte torpor provocado pela refeição de deuses, tudo fica desperto no ambiente com as porradas do calhamaço de papéis sobre a mesa e da mão pesada sobre os papéis. Os olhos esbugalhados ficam ainda mais arregalados porque o coronel diz para o prisioneiro ver o que significam tais documentos para ele e, com as duas mãos, joga-os na lata de lixo.

“Vamos começar tudo de novo!”, anuncia a voz grave do militar, que se apresenta como tal verdadeiramente, com a fisionomia mais severa ainda, e ordena que ele seja levado.

O brilho recente dos olhos arregalados do prisioneiro desaparece com a pergunta que se faz de o que significará “começar tudo de novo”. Afinal, ele não conhece a tradicional brutalidade do lugar.

Estação Gorki

O jipe toma direção diferente da vinda e trafega por área edificada, com grande trânsito de soldados. Embora tranqüilizador, diante das tantas surpresas apresentadas, é melhor não relaxar. A escolta e seu prisioneiro param diante da construção maior, o comando do Regimento Sampaio. Algumas salas e corredores, amplos pela arquitetura colonial, separam o desembarque da grande porta de grades da primeira cela coletiva da viagem de trem-fantasma.

Cenário fantástico! Cela e prisioneiros espantosamente iguais à montagem de “Ralé”, de Máximo Gorki, dirigida por Gianni Ratto no Teatro República. Indagadores e preocupados com a saúde mental do recém-chegado, sinalizada como mal pelos olhos outra vez esbugalhados, só que agora de admiração, os presos pensam que acaba de chegar mais um enlouquecido pela estação Barão de Mesquita.

É, a visita de Alex parece ter sido decisiva para colocar os pingos nos is e a visão das paredes com limo da ampla cela coletiva é como se fosse a de um palácio, da ralé, mas, diante dos cubículos que conhecera, um palácio de esbugalhar os olhos!

Em lugar das cinco ou seis celas que compunham o que seria a haste horizontal do corredor em T da Barão de Mesquita, ele tinha à sua frente cinco ou seis camas, arrumadas impecavelmente, com lençóis puídos, é verdade, mas limpos. Avelino indica uma das camas do meio, onde o novo hóspede senta e coloca a sacola de poucas coisas na cabeceira. Todos se aproximam e se organizam em torno, sentando-se nas outras camas, para ouvir o recém-chegado. Menos Thomas Antônio da Silva Meirelles Netto, que fica meio destacado.

O papo é colocado em dia na hora em que chega a janta - sopa de carne com legumes servida em generosa lata de banha, das quadradas e grandes. Junto, vêm os pães acompanhando. Outra vez Avelino toma a iniciativa e leva a lata de sopa para servir no prato de plástico de cada um. Zé Maria, o último maluco que chegara ali, produzido pela tortura e nove meses de solitária, conversa com insetos, particularmente com baratas, e é o mais guloso, a despeito de seu corpo franzino, repetindo duas vezes.

Após a janta e a troca da guarda, Freire se aproxima das grades e confabula com o sentinela, um comportamento surpreendente para o novato, que fica mais surpreso ainda quando o companheiro se aproxima e lhe oferece um cigarro, o primeiro desde que entrou naquela bad trip! Um Minister com filtro, que barato! E deu barato mesmo: depois de mais de dois meses sem fumar, ele, que consumia três maços por dia, experimenta na primeira tragada, profunda, que entra pelos pulmões e percorre todas as veias do corpo, uma descarga quase lisérgica que o deixa tonto e entorpecido.

Ronaldo e Avelino não fumam e mantêm seus físicos atléticos com muita ginástica, todos os dias. Apesar da enorme cicatriz que divide seu corpo na altura do abdome, marca deixada por uma rajada de metralhadora que quase o partiu em dois, Avelino faz incontáveis flexões e abdominais sem demonstrar incômodo. Líder estudantil quando cursava a Belas Artes, tinha sido também objeto do desejo de suas lideradas. Ali, com os longos cabelos lisos raspados e o corpo cheio de cicatrizes, certamente não faria o mesmo sucesso.

Talvez por causa das belas-artes, e porque também é garoto da Zona Sul, dois pontos em comum, Avelino se aproxima do novato e puxa longos papos. Pergunta sobre as coisas da vida, de novas ondas e baratos a movimento estudantil, e propõe jogar xadrez, outro interesse compartilhado. As conversas encontram suporte nas partidas intermináveis, noite adentro.

Pelas mesmas supostas razões da aproximação de Avelino, o último doidão da geladeira parece ser discriminado ou visto com condescendência pelos outros, críticos intransigentes da pequena burguesia. Alguns, como Zé Maria, proleta da ALN, chegam ao desdém. Mas a simpatia prevalece e os laços com cada um aparecem e se afirmam.

Tanto quanto o corpo coberto de cicatrizes de Thomas Antônio da Silva Meirelles Netto, marcas das vezes em que foi arrastado por jipe, aparece seu refinamento cultural, conquistado em dez anos ou mais de formação na URSS. Da mesma forma, lá se forjara a firmeza ideológica que o autorizava a dizer apenas nome e patente, mesmo sob a tortura mais terrível. Nas folhas de papel almaço entregues ao grupo em salas de aula para que cada um escreva sua história, nas interrupções de banhos de sol, ele também só escreve nome e patente. Amazonense de família rica, sem muitos parentes no Brasil, dizem que o coronel do exército soviético e chefe do setor de inteligência da ALN Thomas Antônio da Silva Meirelles Netto também tem mulher e filha, só que em Moscou.

Conta a lenda que o coronel cai quando circula nas altas rodas da capital, particularmente entre as mulheres dos poderosos, das quais desfruta todas as intimidades, incluindo-se aí rotinas, horários e roteiros dos maridos. Falando vários idiomas, seu círculo de amizades coloridas se amplia às embaixadas, e por ser um processo contra ele altamente desmoralizador para o regime, fica preso sem acusação. Também conta a lenda que ele é solto sem explicação, quando já não existe nenhum remanescente do seu grupo, e é metralhado na rua ao sair da casa de um amigo que meses antes o acolhera, para comprar cigarros.

Estação Regimento Sampaio

Logo acontece troca no elenco do arremedo de peça de Gorki: sai Ronaldo, entra João, cuja fama de ter sido o primeiro preso político a fumar baseado na cadeia corre os cárceres e sempre o antecede. O primeiro, mas não o único, que o digam as paredes das celas do quartel do Leblon.

No dia-a-dia agora monótono, a rotina da “Ralé” se divide entre os ginastas e os preguiçosos, não necessariamente gordos, pois são justamente os magricelas que não querem nada com o basquete. Aliás, com a saída de Ronaldo, a turma da preguiça ficou em maioria e só Avelino e Zé Maria suam a camisa de verdade, várias vezes por dia. Os outros se contentam em caminhar em círculos e abrir e fechar os braços, na vertical e na horizontal, durante a hora de banho de sol diária.

A quebra da monotonia é feita várias vezes por conflitos muito distantes das acontecências da Barão de Mesquita. É coisa de recusar comida quando ela chega misturada como lavagem para porcos e mergulhada na banha fria. Nem sempre tem alguém com saco para separar os grãos de arroz e de feijão e os pedaços de carne ou frango da gordura. A resposta, imediata, é recolher as caixas de fósforos e fica-se sem fumar, supremo castigo para quem já se considera num balneário. Sem ter mesmo o que fazer, a turma resolve fazer fogo para acender um cigarrinho esfregando um cabo de vassoura no outro, em revezamento dia e noite até conseguir, suprema vitória.

Apesar do clima favorável, quando chega a escolta e convoca algum dos prisioneiros a recolher seus pertences, a apreensão é grande, todo o passado muito recente desaba em toneladas sobre suas cabeças, como na vez do ex-doidão da geladeira. Ele sai da cela escoltado, sob olhares que se esforçam para confortar, percorre os corredores largos, chega no amplo saguão da entrada principal do quartel e, ali, sem nada além da sacola com suas poucas coisas, ouve perplexo a ordem para ir embora dada pelo sargento comandante da escolta, que lhe aponta o portão que leva para a rua.

Como assim? Como ir embora sem nem um centavo? E depois, dar um passo além daqueles muros, sozinho, é tão assustador quanto o primeiro passo dado quando o cerco ao apartamento foi percebido. Que situação maluca! Que porra de liberdade é essa? Será na verdade uma armadilha? A dúvida fica maior ainda quando a escolta simplesmente vai embora e o prisioneiro fica parado na porta, olhando para todos os lados para ver se tem algum fusca ou Veraneio dando bandeira nas redondezas. De jeito nenhum ele sai dali assim, sem pai nem mãe, sem dinheiro para pegar ônibus! Tá doido?

“Ô sargento, me arruma pelo menos uma ficha de telefone para eu chamar alguém!”

O carro da grande empresa estatal em que trabalha um tio chega com o sol ainda alto, apesar da demora, só com o motorista. Apesar disso fazer com que a insegurança permaneça, talvez porque a vontade de acreditar seja maior, o logotipo da companhia pintado nas portas é apressadamente aceito como garantia de salvo-conduto, e o ex-prisioneiro embarca para a viagem de volta.

Mesmo com a longa e cinzenta Avenida Brasil ficando marcada na memória, as cores da vida aparecem novamente, pela janela do carro, e a cidade está surpreendentemente nova e lavada.

O Rio de Janeiro continua lindo.

______________________

* Edgard de Aquino Duarte, Sérgio Landulfo Furtado e Thomas Antônio da Silva Meirelles Netto são personagens com nome e sobrenome porque estão na lista de presos políticos brasileiros desaparecidos. Citar seus nomes é uma forma de lembrar que é preciso saber o que aconteceu com eles.

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Uma resposta para “ Sala de espelhos ”

  1. PianoNiceGuy disse:

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