Acessibilidade em Búzios

ANDREI BASTOS

Nessas minhas férias em Búzios, surpreso com vagas de estacionamento reservadas respeitadas, ônibus adaptados, rampas e calçadas rebaixadas, fiquei curioso e procurei saber como tinha sido essa história da acessibilidade no pedaço. Conversando aqui e ali, dando uma olhada nos arquivos dos jornais locais, constatei, mais uma vez, que do céu só cai chuva mesmo.

Descobri com as conversas e na pesquisa que, em 2006, a então deputada estadual Georgette Vidor, paraplégica, esteve na cidade fazendo palestras sobre acessibilidade e distribuindo cartilhas do Núcleo Pró-Acesso da UFRJ e que, no entanto, nesse mesmo ano foi sancionado um Plano Diretor que não contemplava as necessidades das pessoas com deficiência.

Também fiquei sabendo que, depois de algumas iniciativas para isso em outras cidades da Região dos Lagos, na forma de eventos para conscientização, só recentemente, em 2009, e por conta de uma decisão judicial, é claro, o município passou a respeitar a lei e a se tornar acessível.

Assim, a verdadeira história da acessibilidade em Búzios começa com Juciara Tardelli dos Santos Silva, paralítica dos membros inferiores, que “foi constrangida a ‘rastejar’ pelos degraus, para conseguir subir no ônibus”, inclusive ferindo-se pela acomodação inadequada durante a viagem. Ela acionou a empresa Salineira, que foi condenada pelo juiz João Carlos Corrêa, titular da 1ª Vara da Fazenda Pública, a lhe pagar uma indenização e a providenciar a adaptação de veículos.

Ou seja, caro leitor, sem Brahma não dá! Quer dizer: sem briga, sem luta pelos nossos direitos, nas cidades mais desenvolvidas ou em paraísos como Búzios, a inclusão das pessoas com deficiência não cai do céu, não acontece como simples resultado do discernimento humano.

Portanto, se o novelista Manoel Carlos levar Luciana para tomar sorvete e fazer compras na Rua das Pedras, fugindo do calor do “Rio 50 graus” num dos próximos capítulos ainda de verão de “Viver a Vida”, dará ao seu gigantesco público Brasil afora uma excelente oportunidade de se conscientizar e refletir sobre os benefícios da acessibilidade para todos e sobre a importância de se lutar por isso. Ricos, pobres, com deficiência ou não, em Búzios, no Leblon ou na favela da Sandrinha, a personagem que vive no extremo oposto ao glamour do high society e das passarelas, todos poderão se engajar nessa luta.

A simples existência da personagem tetraplégica na novela já é grande contribuição para a perda da nossa “invisibilidade” e, certamente, as questões das pessoas com deficiência também já estão sendo melhor compreendidas através do dia a dia de Luciana mostrado na TV.

Com tudo isso, talvez a acessibilidade passe um pouco a fazer parte do ideário popular, o que contribuirá para uma nova visão do mundo em que vivemos e para que muitas ações judiciais deixem de acontecer por inexistência de motivos, da mesma forma que deixarão de existir muitas outras Juciaras constrangidas.

***

Leia também:

Vidinha mais ou menos…

8 respostas para “ Acessibilidade em Búzios ”

  1. xisto medeiros disse:

    arquiteto goiano [paraplégico aos 16 anos em luta marcial]. premiado no ENIC de Fortaleza [2001] com o tema “acessibilidade” levado nos braços até o palco para receber seu prêmio pois nosso centro de convenções não contemplava o tema do seu trabalho.
    citava êle: cerca de 55% da humanidade é portadora de necessidade especial quando contemplados os temporais: mulher grávida; criança; acidentados, etc.
    pratico engenharia radical que condtempla soluçoes inusitadas para tal.

  2. Janet disse:

    Andrei querido companheiro de luta e idéias,quando meu pai precisou durante quatro anos de cadeira de rodas(90/94),senti na pele literalmente o descaso da sociedade com os deficientes.Conte comigo para esta luta.
    Bjs Janet.

  3. Regina Cohen disse:

    Legal Andrei,
    Não sabia que Búzios estava bem assim na acessibilidade e por isso não tenho optado por ir passar alguns dias das minhas férias por lá. Da última vez que tentei me locomover pela Rua das Pedras com minha cadeira de rodas, passei por uma verdadeira aventura. Como estão as pousadas e hotéis de lá? Existe algum adaptado?
    Mudando de assunto, acho que nosso RJ está deixando bastante a desejar e nossos projetos para a Rio 2016 estão demorando muito a iniciar, 6 anos passam rápido demais e temos muito que fazer. Você deve estar atento ao noticiários do deque no Bob’s aqui de Ipanema que tirou toda a calçada dos pedestres, na péssima condição das calçadas e do asfalto da maioria das ruas, além de outros fatores fundamentais de uma acessibilidade para todos.
    No quesito transporte, gratifica saber do Decreto do Sérgio Cabral para os ônibus de piso baixo até 2014. Isto é desenho universal, mas há muito para ser feito. Gostaria de conversar contigo sobre este e outros assuntos.
    No final do ano perdi toda a agenda do meu celular quando vinha de Copacabana debaixo de um temporal. Me envie seus contatos e vamos marcar uma conversa?

  4. georgette vidor disse:

    Andrei
    Foi muito bom constatar que nosso trabalho na ALERJ não foi em vão. Realmente trabalhei muito aquela região, pois como vc , eu também sempre achei que nós deficientes temos o direito de curitr aquela região maravilhosa.
    Um grande abraço
    Georgette Vidor

  5. cleia Schiavo disse:

    Quantas cidades ainda teremos que construir . A considerada acessivel que nada tem a ver com o nome e, em uma escala de mais dificuldades , a cidade referida pelo Andrei . Mas, é possivel , atrav´s de pressao alcançar , conquistas direitos até agora ignoradas pelas autoridades .
    Preciso fazer voltar `a çâmara nossa Georgete Vidor . Cleia Schiavo

  6. cleia Schiavo disse:

    correcao : Precisamos fazer voltar `a Câmara a Georgete Vidor

  7. TANIA SPERONI disse:

    Oi Andrei!
    Posso publicar-te no nosso blog?
    Beijos
    Tania Speroni

  8. Andrei Bastos disse:

    Claro, Tania!
    E fico muito grato por isso.
    Beijos e obrigado,
    Andrei

Deixe uma resposta.

Você deve estar conectado para publicar um comentário.