Um mal necessário

ANDREI BASTOS

A lei de cotas para pessoas com deficiência no mercado de trabalho fez dezoito anos, mas ainda está engatinhando. Ela nasceu em 1991, foi regulamentada em 1999 e a fiscalização e aplicação de multas foram definidas e começaram em 2001 – dez anos depois da sua promulgação! Portanto, todas as etapas da sua evolução se deram muito atrasadas no tempo e ainda hoje ela se expõe como um anacronismo.

Sua condição de inadequação não se deve apenas ao fato de que contradiz a verdadeira noção de inclusão, que não contempla procedimentos de proteção excepcional e de natureza segregadora e autoexcludente como cotas, estatutos, comissões ou organismos governamentais ou civis de dedicação exclusiva. Os direitos das pessoas com deficiência estão no âmbito dos direitos humanos e, fora isso e objetivamente, ela é uma lei anacrônica porque coloca o carro na frente dos bois – sua efetivação plena depende do equacionamento de problemas que antecedem ao que ela pretende resolver. Antes de empregos, precisamos de acessibilidade e educação inclusiva.

Podemos aceitá-la como mal necessário, e temporário, apenas porque ela procura reparar injustiças historicamente cometidas contra as pessoas com deficiência, e que ainda o são, e porque contribui para colocar a questão da nossa inclusão mais amplamente na sociedade ao abordar a atividade econômica.

É difícil até aceitá-la como ação afirmativa quando, pela falta de acessibilidade nas cidades e construções e no sistema de transportes coletivos, não temos nosso direito de ir e vir respeitado e, mais que isso, quando sabemos que a esmagadora maioria dos deficientes é de pessoas pobres, que não têm dinheiro para comprar automóvel adaptado ou pagar motorista particular e depende de ônibus, trem, metrô ou barco para tudo na vida. Diante disso, a fiscalização e aplicação de multas, de preferência muito pesadas, junto aos concessionários de transporte público é que seria uma verdadeira ação afirmativa. Afinal, que empregador vai tolerar um funcionário que não tem como chegar na hora certa ou mesmo chegar?

Enquanto isso não acontece, ficamos assistindo a um desfile de boas intenções de gente caridosa, que tanto se esforça para arranjar um empreguinho para um deficiente, e de empresas magnânimas, que toleram empregados sem produzir porque sai mais barato do que pagar multas ou que escolhem entre as deficiências qual a que vai atrapalhar menos. Fala sério! Vamos acabar com essa hipocrisia e realizar ações afirmativas de verdade!

Senhores empresários e pessoas bem intencionadas em geral, juntem-se a nós na luta por direitos e não por caridade e, particularmente, no combate à máfia dos transportes coletivos, que resiste à implementação da acessibilidade em seus veículos. Feito isso, as pessoas com deficiência não terão mais dificuldades para estudar e se qualificar profissionalmente e, por sua vez, as empresas não terão mais dificuldades para contratar profissionais com deficiência, que não são extraterrestres e nem coitadinhos.

Podem me chamar de deficiente mal-agradecido à vontade, mas eu é que sei o duro que dou quando meu Honda Civic automático, modelo 1993, baixa enfermaria.

9 respostas para “ Um mal necessário ”

  1. Janet disse:

    Andrei continue escrevendp para que as pessoas se conscientizem da necessidade de respeito as pessoas com problemas fisicos.Bjs Janet.

  2. Walace disse:

    Somente a ativa participação dos “beneficiários” de qualquer dita minoria, no plano político, será capaz da produção de mudanças.
    Chega de migalhas. Viva o manifesto.

  3. Carlos Raugust disse:

    Olá Andrei,

    Postei sua matéria em nosso BLOG..

    http://apnendenovaodessa.blogspot.com/

    Abraço.

  4. Alfredo José de Oliveira Camacho disse:

    Olá amigo Andrei Basto:

    Sou Alfredo Camacho aqui de Boa Vista, Roraima, sinto orgulho quando vejo que entre nós existem pessoas como você que assume a linha de frente nessa luta contra a desigualdade. Você não sabe o quanto representa para nós o papel que desempenha neste país espartano, mas que escamoteia de toda forma o preconceito e as discriminações pelas quais passamos. Parabéns, amigo!
    Abraço,
    Alfredo Camacho

  5. Marcia de Almeida disse:

    Agora vcs imaginem que estão vendendo selos que identificam os carros para pessoas com deficiência para os nào-deficiente usarem e ocuparem essas vagas, falsamente.

    Quem dá esses selos? o Detran? Vc compra na esquina? eu não sei, mas tem que dar um corredor polonês em quem burlar.

  6. Sandro disse:

    Olá Andrei
    Parabéns pelo texto. Nós pessoas com deficiência deveríamos ter uma melhor atenção dos órgãos públicos. Atenção esta voltada ao preparo e adequação ao mercado de trabalho através de cursos profissionalizantes de acordo com a limitação de cada um.
    Lhe pergunto, onde estão os orgãos do governo responsáveis pela inclusão da pessoa portadora de deficiencia no mercado de trabalho. A lei é clara e a percentagem de trabalhadores com deficiencia em cada empresa deve ser respeitada, porém, a inclusão e a readequação de pessoas com deficiência devem ser feitas não somente para cumprir com legislação vingente, de maneira, em que o deficiente não se sinta um estorvo na empresa. Deve sim dar condições que ele tenha uma qualificação séria e se sinta útil na empresa desenvolvendo um labor honesto para que seja merecedor do seu salário no fim do mês.
    Infelizmente, os órgãos responsáveis pela nossa inclusão estão preocupados em arrecadar dinheiro e dinheiro para contribuir com a insensatez ocorrida no dia-a-dia em Brasília.
    Obrigado pela oportunidade.
    abços
    Sandro Bento Araújo
    Bom Sucesso - Paraná

  7. Andrei Bastos disse:

    Amigos, muito obrigado pelo estímulo. Carlos, muito obrigado pela reprodução do artigo em seu blog. Assim, com vocês, tudo vale mesmo a pena. Um grande abraço para todos.

  8. Tania Speroni disse:

    Oi Andrei
    Muito coerente tudo que vc fala, mais uma vez parabéns.
    Peço também sua autorização pra poder publicar trechos da sua opinião no meu blog, essa semana todos os blogs que acompanho, têm batido na tecla da inclusão e mercado de trabalho, vou aproveitar a deixa também e botar minha boca no trombone.
    Atenciosamente
    Tania Speroni.

  9. Andrei Bastos disse:

    Tania,
    Muito obrigado pelas suas palavras e não precisa pedir autorização para publicar meus textos no seu blog. Fique à vontade.
    Abraço,
    Andrei

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