Brincadeira tem hora
Brincadeira tem hora
ANDREI BASTOS
Diz o ditado que não basta à mulher de César ser honesta. Ela tem que parecer honesta. Em outras palavras, ao menos para mim, entendo que devo me esforçar para ser coerente com minhas convicções em todas as atitudes, em público ou reservadamente.
Ontem fui convidado por uma amiga cadeirante para acompanhá-la na “cerimônia de entrega dos termos de outorga da Faperj” para o projeto Construindo a Cidadania da Pessoa com Deficiência, no Palácio Guanabara, com a presença do governador, do secretário estadual de Ciência e Tecnologia e outras tantas pessoas importantes. Em outras palavras, era um oba-oba para repercutir a liberação magnânima de dinheiro público para pesquisas na área das deficiências, o que considero apenas uma obrigação do Estado, muito insuficiente, diga-se de passagem.
Como nunca é demais repetir, da mesma forma que não sou da milícia, do tráfico, do bicho ou de qualquer esfera de governo, também não integro nenhuma instituição beneficiada pelos “termos de outorga” citados acima. Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, uma pessoa com deficiência sem rabo preso, e não devo satisfação ou obediência a ninguém. Só à minha consciência.
Quando cheguei com minha consciência na porta do Palácio, fui informado que a solenidade aconteceria no segundo andar e que o único acesso era a escadaria que me foi apontada. Surpreso, perguntei se existia elevador e me foi dito com muita gentileza que não, mas que eu poderia ser carregado pelos seguranças. Com igual gentileza agradeci a oferta, delicadamente informei da minha surpresa por um evento relacionado à pessoa com deficiência ser realizado num lugar inacessível no próprio palácio do governo, que deveria ser o primeiro a cumprir a lei, e conclui dizendo, também delicadamente, que não aceitava ser carregado e que permaneceria ao pé da escada, em protesto, durante todo o tempo da cerimônia. Eles compreenderam e civilizadamente me ofereceram uma cadeira.
Contando aqui o que aconteceu, eu não pretendo julgar ninguém. Meu objetivo é somente relatar os fatos, responder às interpelações que me foram feitas e não deixar dúvidas sobre o meu comportamento.
Começando pelo fim, da cerimônia, bem entendido, encontrei um amigo que me conhece há 40 anos, o doce e bem-humorado Silvio Tendler, que disse que meu protesto teria sido mais eficaz se eu tivesse aceitado ser carregado e, durante o evento, tivesse tomado a palavra e dito em tom de brincadeira: “Governador, já está na hora de colocar um elevador!”. Sorrindo, pois meu protesto não era mal-humorado, discordei do meu amigo. Brincadeira tem hora, e aquela não era hora de brincadeira.
Bem antes do encontro com o Silvio, quando as pessoas ainda estavam chegando, me foi dito que aquele não era um momento apropriado para protestar, pois ali se efetivava uma grande e inédita conquista das pessoas com deficiência do Rio de Janeiro, e que eu deveria subir. Para completar, também me foi dito que eu deveria ir embora no caso de não querer subir por meus próprios meios ou carregado.
Minha consciência, que até então quase adormecia de tão tranqüila, despertou inquieta e sugeriu que eu respondesse, sempre educadamente como mamãe ensinou, que não era minha intenção estragar a festa de ninguém e sim me manifestar, de maneira solitária, silenciosa e calma, sem nenhum espalhafato, pelo que considerava ser um direito meu, que é o da acessibilidade num prédio público, cujo prazo para implementação, determinado pelo Decreto-lei 5.296 de 2 de dezembro de 2004, venceu no dia 3 de junho de 2007.
Quanto a me dizerem pra subir ou cantar pra subir, eu nem levei em consideração, e não levaria mesmo que fosse o próprio Papa o autor de tal despropósito ou que fizessem qualquer tipo de ameaça à minha integridade física. Aí mesmo é que minha consciência não ia me deixar quieto. Afinal, eu perdi uma perna mas não a dignidade e a coragem.
Por último, e como antecipei no começo do texto, a liberação de recursos públicos para pesquisas, na área das deficiências ou não, é uma obrigação do Estado e é pequeno e profundamente constrangedor dar um caráter de solenidade e magnanimidade a eventos dessa natureza, por mais expressivos que sejam os valores envolvidos, e mais desconcertante ainda quando não é este o caso. Além do mais, eu sou intransigente sim em relação aos direitos das pessoas com deficiência, não os negocio em palácios ou onde quer que seja e, diante dos rapapés e salamaleques baratos dessas ocasiões palacianas, acho mais digno pedir esmolas nos sinais de trânsito.
Meu preço é muito alto. Meu preço é o cumprimento da lei.

21 de Agosto de 2008 @ 14:52
Só me resta parabenizar pela atitude e coragem. Grande exemplo!
21 de Agosto de 2008 @ 15:02
Matou a pau, cara. É isso aí. Chega de palhaçada. Gostei de sua atitude.
21 de Agosto de 2008 @ 15:24
Prezado Andrei,
Adorei o seu arrazoado, é isso mesmo. Também gosto das coisas nos seus devidos lugares. Deficientes não são coitadinhos nem heróis, são pessoas comuns, que valem pelo que são.
Vc fez muito bem em mostrar a todos a situação corriqueira de não poder subir uma escadaria. Trabalhei na assessoria de imprensa do IBGE e, na divulgação de uma pesquisa, apoiada por um dos organismos da ONU, etc, sobre deficiência, onde estava toda a imprensa,escolheram um hotel de copacabana. Terminado o evento, convidaram para o coquetel, para um local cujo acesso era por dois lances de escada. Quando vi, não acreditei, virei-me para a responsável pela pesquisa e disse: agora vc explica isso aos jornalistas. A sorte deles é que a imprensa cai fora tão logo acaba o evento, nunca fica para os comes e bebes e o pessoal já tinha ido embora, inclusive o Ari Peixoto, que era quem cobria pelo JN. Como assessora de imprensa não podia passar isso pra imprensa, mas internamente fiz o assunto render o máximo que podia, ameaçando-os de que se a imprensa tivesse visto, essa seria a notícia e não os dados apresentados.
Enfim, aparecer mais nas ruas e tornar evidentes essas contradições é o melhor que se pdoe fazer. É preciso criar mais situações cotidianas, normais, porque quem não tem o problema não pensa nisso, não é por mal. Então o que se precisa é fazê-los pensar.
Isso aconteceu tb com as mulheres. eu, quando comecei minha vida profissional, no Estadão, em SP, naquela redação de 300 homens, fui das primeiras mulheres a trabalhar lá e, quando passei na seleção, me disseram que eu não podia ser contratada, porque não havia banheiro de mulheres. eu respondi: “não tem, logo tem”. Como para mostrar a eles que eu não tinha problema algum por ser mulher, eles é que tinham. Hoje, vc vê, nas redações, a maioria dos profissionais é mulher.
Um grande abraço
Maria Léa
21 de Agosto de 2008 @ 21:01
Diginidade e coragem ! isso realmente é o que falta para muitos de nois deficientes, em cerimonias deficiente agradecem a gentileza, porem como vc mesmo disse não fazem mais do que obrigaçã!.
Quando vc disse que não faz parte de nenhuma entidade. por qual motivo ? hoje eu sou presidente de uma associação de def.; tenho 28 ano….
e luto com todas as minhas forças por uma cidade acessivel não por mim, mais por aqueles que ainda desconhecem seus diretos,
na nossa entidade carente de recursos, mais rica em espírito solidário.
eu não sei como fazer para cobrar da prefeitura da minha cidade a adptação de todos os bus isso pq o decreto ele não deixou claro o prazo que os bus tem que vir adaptado e não é só o bus mais calçadas ed publico como o que vc comentou do palácio…
bom é muito o que temos que conversar, gostei da sua visão que vc tem,
ah! respeito sua opnião!, mais é confiar na conciência não é bom, as vezes ela é perversa e enganosa.
abraço
carlos
22 de Agosto de 2008 @ 09:36
Amigo, fiquei estupefata com o fato narrado e mais uma vez orgulhosa da sua dignidade, palavra que poucos conhecem nos dias de hoje.
Espero que a sua postura tenha servido para acordar algumas pessoas que se encontravam acima de você, embora só fisicamente.
bjs
24 de Setembro de 2008 @ 04:53
Andrei , sei muito bem este como è este constrangimento ao qual voce passou . Estes descasos descarados por aqueles que governam estão todos os dias fazendo parte das vidas dos cidadãos deficientes ou não dentro desta nossa “podre Sociedade ” . Não sei se è o caso , mas não posso deixar de passar esta oportunidade . Sou paraplegico e tambem renal cronico ; o primeiro procedimento em uma seção de hemodiàlise .começa c/ a pesagem , visto que muitas clinicas não dispoem de balanças apropriadas p/ pesarem pacientes cadeirantes . Inclusive a clinica qual estou vinculado . Muitas requisições jà fiz ; tendo como negativa e alegação , que a PORTARIA , não preve a obrigatoriedade de tal equipamento . Sendo um absurdo estas clinicas prestadoras de serviços alegarem e exporem deficientes e sexagenarios a sentarem em um banquinho sobre a balança de forma improvisada e perigosa para executarem tal pesagem . Portanto jà venho em forma de protesto prejudicando meu tratamento BOICOTANDO minha pesagem por não aceitar tal exposição e nem aceitar mais estes descasos por parte desses mercadejadores da desgraça alheia de forma descaradamente MERCENÀRIA . NÃO POSSO MAIS LUTAR SÒ , TODOS PRECISAM SABER O QUE ACONTECE .