Ouço os passos de Mengele!

JACKSON VASCONCELOS

A Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro é um balaio-de-gatos. Ali tem de tudo e num ambiente assim é infinita a variedade de comportamentos paradoxais.

Na sexta-feira, 31 de março, a Câmara, numa iniciativa da vereadora verde Aspásia Camargo, homenageou o autor e todo o elenco da novela global “Páginas da Vida”, que teve suas melhores passagens com a história de Clara, criança representada por Joana Morcazel, menina fantástica, atora de primeira linha, portadora da Síndrome de Down.

A decisão do autor da novela, Manoel Carlos, de enfrentar o preconceito, que ainda há na sociedade brasileira com relação às pessoas com deficiência e o belo desempenho da menina Joana Morcazel, fizeram de Clara personagem central da novela e ausência muito sentida no plenário da Câmara Municipal no dia das homenagens. Joana Morcazel não pode comparecer, porque, com justiça. , recebia homenagens em outras terras.

Entretanto, houve, na festa, um penetra doidivanas, um estraga-albardas. Um sujeito que sem cerimônia nem constrangimento apresentou ao plenário da mesma Câmara Municipal o projeto de lei 1044, de 2007 com a intenção de conceder benefícios fiscais e vantagens aos pais de crianças nascidas perfeitas.

O vereador Wilson Leite Passos é o cínico autor desta monstruosidade. Cínico, porque quer vestir com a boa intenção de cuidar das mães gestantes pelo incentivo aos exames pré-natais, um projeto de lei que pretende, na verdade, aplicar na cidade do Rio de Janeiro, uma política eugênica bem ao estilo de Esparta e de Hitler.

Em Esparta as crianças nascidas com algum defeito físico ou mental eram lançadas por suas mães do alto de um penhasco do Monte Taígero. Os nascidos perfeitos eram entregues ao Estado que deles cuidava para fazê-los soldados perfeitos. Hitler seguiu o mesmo caminho para criar uma raça pura e com isso, de modo consciente, patrocinou Joseph Mengele.

No entanto, o pior do caso não é a criação do projeto de lei pela representação tupiniquim de “Todesengel”, porque por menos aplicados ou atentos que sejam os seus colegas parlamentares, se sabe, desde logo, que a idéia terminará no lixo ou no máximo nos anais para que as futuras gerações saibam que um dia houve, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, um Mengele.

O insuportável da história é saber que esse cidadão é sustentado, ele, sua prole e todos os seus auxiliares, com o imposto pago por todos, inclusive por aqueles que ele, com o seu preconceito, despreza.

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