Nas mãos de Deus
ANDREI BASTOS
Diz o ditado que “Deus protege as crianças, os bêbados e os loucos”. Diante dos acontecimentos desta madrugada, temos que acrescentar os cariocas nessa lista. Afinal, o que esperar de instituições de segurança pública que se confundem com o crime organizado? Quantos Álvaros Lins ainda não existirão acoitados na máquina pública de desgoverno, que há muito deixou de ser pública e só demonstra eficiência ao locupletar seus insaciáveis assaltantes e mantê-los impunes?
Assim como o tecido urbano está deteriorado pelo crescimento desordenado e fora de controle das favelas, o tecido moral da sociedade está corrompido pela promiscuidade entre as ditas instituições sociais e o crime. As práticas desclassificadas de integrantes do Executivo, do Legislativo, do Judiciário e de seus departamentos subalternos demonstram que não existe mais bandido e mocinho nessa trágica brincadeira. É tudo bandido!
Infelizmente, nas últimas eleições mais uma vez faltou aos eleitores o discernimento necessário e escroques de vários calibres foram eleitos ou reeleitos. Mas não devemos culpar os eleitores e sim os governantes, que sempre sonegaram à população as condições para tal discernimento, assim como muitas outras prioridades da cidadania.
A história dessa madrugada, além de ser uma resposta mais rápida no gatilho à pretensa integração das forças de segurança pública da região, na verdade é uma continuação do irrefreável processo de banalização do mal, que certamente teve como clímax as declarações do próprio presidente da República, espantosamente também reeleito, na famosa entrevista em Paris. O que se pode esperar quando um homem na sua posição, em vez de dar o exemplo de correção de princípios, diz, condescendente, ao se referir às práticas criminosas de integrantes do seu partido e do seu governo, que no Brasil é assim mesmo, sempre se fez assim, todo mundo faz assim?
Para infelicidade geral da Nação, a questão da violência não se restringe ao seu próprio âmbito. Para que ela seja resolvida é preciso estabelecer tolerância zero em todos os aspectos e setores da sociedade, do Oiapoque ao Chuí, de Lula a Marcola. Assim como não existe mulher meio grávida, não existe cidadão meio honesto. E enquanto todos os párias não forem banidos da sociedade, estamos nas mãos de Deus.